Qualquer criancinha sabe que chuva é bom, principalmente se perto da sua casa tiver um campinho de futebol ou uma barreira de argila bem vermelha pra se lambuzar bastante - é difícil imaginar quem ainda não viveu esta grande aventura.
A paixão pela chuva em muitos casos ultrapassa a condição cronológica. Tem gente grande crente de que chuva é sinal de boa sorte e com a desculpa de aliviar o estresse não perde um toró de fim de tarde.
Até os egípcios festejavam os aguaceiros que provocavam a inundação do rio Nilo e fertilizavam as terras dos faraós.
A chuva já inspirou o cinema romântico com Gene Kelly e faz parte da história da música popular com o clássico "Águas de março" de Tom Jobim e Elis Regina.
Então tá, chuva é bom e ponto final, ninguém tem mais dúvida desta verdade.
Mas chuva demais e, principalmente, fora de hora, não tem graça nenhuma. Nos últimos tempos tem irritado e deixado muita gente desesperada, com razões de sobra. Parece que não tem hora pra chover, e a dor de cabeça é inevitável com as 'pancadas' e os rastros de destruição e de tristeza que em nada combinam com aquela fama dos parágrafos anteriores.
A verdade é que a chuva se tornou tão frequente quanto o horário do chopinho de tarde ou, para os caseiros, tão pontual como as novelas e BBBs da vida. Ou seja, pode atrasar ou adiantar alguns minutos, mas vai aparecer na telinha das nossas vidas.
Na real, não temos mais como fugir deste inconveniente. E se forem certas as explicações de quem entende de tempo (e de chuva) todos nós, com menos ou maior intensidade, nos tornamos refens desta condição, especialmente nos chamados meses da estação das águas.
Então, com o diz aquela máxima, se não podemos resolver o problema de meteorologia, o negócio é nos adaptarmos à situação. Afinal, já ensina a geografia humana que não é o meio ambiente que se adapta ao homem e sim o inverso. Porque, sejamos justos com a natureza, muito do que está acontecendo leva a nossa assinatura.
Diante do caso consolidado, já deu pra perceber que muitas das nossas rotinas precisam ser ajustadas à chuva nossa de cada dia.
Seja em que situação ocorra, os nossos diálogos passam a depender da intempérie (in)prevista. Vejas algumas destas possibilidades:
No mundo executivo, reunião de negócios sempre marcada para 'antes' ou 'depois' da tempestade. No RSVP dos convites a observação: 'Antes de confirmar presença, consulte os serviços de Meteorologia'.
Imagina aquele casal que acaba de se conhecer na balada, ambos loucos de paixão. Ele a questiona: 'Na sua casa ou na minha?' e a resposta é imediata: 'não dá, minha rua já deve estar inundada', seguida de um 'pôxa, eu moro em apartamento, mas também não consigo chegar lá'.
Na rodada de chope, o sujeito apropria-se de Adoniram Barbosa para despedir-se dos amigos com um sonoro '... moro, na zona Sul, se pegar esta chuva que cai agora, só amanhã de manhã...'
Também tem as soluções encontradas pelo pessoal da área de desenvolvimento de produtos. A indústria automobilística prepara o lançamento do 'GPS Molhado' que indica as ruas inundadas e dá dicas de como se livrar do caos no trânsito.
E os fabricantes de capas e galochas anunciam produtos similares aos desidratados que à primeira gota de água se transformam em invólucros totalmente impermeáveis.
Em várias áreas surgem novidades, como aulas de escafandrismo, enquanto as empresas de transporte se preparam para adequar suas frotas com overcrafts, aqueles veículos que andam nas ruas e navegam nas águas.
Descobrimos então, finalmente, que as enxurradas também são sinônimo de oportunidades.
Ronaldo Corrêa
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